A “Síndrome de Arruda Botelho” define um fenômeno curioso e perverso da moralidade brasileira contemporânea: a ética que floresce na absoluta ausência de oportunidade. Antes que algum acadêmico apressado procure o termo em compêndios de psicologia ou manuais de psiquiatria, convém esclarecer: esta Classificação Internacional de Doenças (CID) é de minha inteira e exclusiva lavra. Trata-se de uma patologia social que diagnostiquei ao observar como a retidão técnica e a indignação ruidosa de certos indivíduos costumam murchar assim que a conveniência lhes acena com um sorriso. O personagem que dá nome à síndrome tornou-se uma figura de proa no debate público jurídico, angariando notoriedade e aplausos ao ser um dos críticos mais ferrenhos da relação promíscua entre o juiz e o promotor no caso da Lava Jato. Sua voz ecoava em defesa da impessoalidade e do rigor ético até que, em um lance de ironia digno de nota, a proximidade com o magistrado lhe rendeu não uma reprimenda, mas um assento confortável em um jatinho particular. Nesse momento, a proximidade que antes era veneno institucional transmutou-se em um hábito inofensivo de convivência. O que era denunciado como uma patologia do sistema passou a ser visto, sob a luz do interesse pessoal, como uma trivialidade das regras do jogo, provando que a gravidade de um erro depende apenas de quem está colhendo os frutos.
Essa idiossincrasia se estende para além dos tribunais e alcança o Juízo das redes sociais, onde o caso da influenciadora Virginia e seus contratos vultosos com casas de aposta serve como um espelho incômodo. A massa que se insurge em comentários puristas contra a ética de promover o jogo de azar é, em grande parte, composta por pessoas que não são inerentemente “melhores” ou mais virtuosas, mas que simplesmente nunca foram testadas por um contrato de sete ou oito dígitos. A indignação, nesses casos, funciona como um anestésico para o ego: ao condenar o benefício alheio, o indivíduo convence-se de sua superioridade moral, quando, na verdade, o que o mantém no caminho da retidão não é o caráter inabalável, mas a falta de convite para o banquete. E, como diria Machado de Assis, um homem antes de jantar não é o mesmo que depois do jantar; a fome de princípios costuma ser saciada pela primeira oferta que cruza o caminho.
O que torna a Síndrome de Arruda Botelho fascinante é que ela não nasce da inveja, que é um sentimento assumidamente sombrio e gerador de raiva. Ela nasce de um sentimento de “bom-moquismo”, de uma crença sincera, porém delirante, de que seríamos incapazes de dar os mesmos passos equivocados. O sujeito acredita na própria pureza porque o laboratório da vida ainda não lhe apresentou os reagentes necessários para a corrupção de seus valores. É uma moralidade de baixa pressão, que só se sustenta no vácuo das possibilidades. No fundo, o que essa síndrome revela é a fragilidade do nosso tecido social e a ausência de princípios que sobrevivam ao primeiro sinal de favorecimento. Vivemos sob a égide de uma ética elástica, que se contrai para chicotear o inimigo e se expande para abraçar o aliado ou o benefício próprio. No final das contas, muitos dos que hoje apontam o dedo com veemência e pregam a santidade civil são apenas caminhantes parados por falta de estrada; o que lhes falta não é a vontade de caminhar pelo erro, mas, como se nota na Síndrome de Arruda Botelho, apenas as pernas fortes para isso.